terça-feira, 19 de abril de 2011

C'est dur de mourir au printemps, tu sais.

Não sei quem sou ou quem fui.

Não nasci Ophélia, mas fui Ophélia enquanto Ophélia me foi o suficiente. O meu nome escreveu-se em sangue e também assim escreveu-se a minha história.

Abro os meus olhos e fecho as minhas asas; sobre o peito, jaz a estaca que ata a ferida e arrefece o sangue.

Morri em uma quinta-feira primaveril, falando francês. Nunca entendi o porquê de se evidenciar ser uma quinta-feira, ser primavera ou estar falando francês. De alguma maneira, soa mais poético que lhes apontar o meu corpo ter sido deixado sobre a sarjeta, como impura ofensa quanto aos meus hábitos. Talvez apenas não se apreciassem mais cachos não aparados naquela região da França.

Marie acreditava em pecados. Enquanto dissertávamos sobre a pureza das relações e controversamente apertávamos os nossos corsets, dirigi-me a ela e pedi para que se encarregasse da cremação do meu próprio corpo, para que a libido pecaminosa imposta em cada poro jamais fosse encontrada.

Marie morreu uma primavera antes. Provavelmente não dizia coisa alguma, menos ainda coisa francesa, esgueirando-se para outros cantos da Europa e tendo como base para reconhecimentos os seus outrora belos fios louros, boiando delicadamente sobre a superfície fria de um lago qualquer.

Acabamos ambas em uma vala comunitária; pela falta de família ou de amigos ou talvez pela falta de vergonha.

Quando soube de seu infortunado destino, atribui a ela diversas sortes de honra pelo simbolismo imposto no ato de dar cabo de si mesma despindo qualquer fantasia.

Imagino o quão perturbada estava a sua já previamente confusa mente para fugir de mim, de si mesma e de toda a França para deixar-se jazer, serena, em seu próprio pecado.

Gostaria de acreditar que o seu Deus cuidou da sua alma, mas de uns tempos para cá, como Ophélia, ousei desacreditar a completa integridade deste deus, por completo. Se tivesse, de fato, a onipotência e o poder de enxergar além das aparências, no entanto, olharia para o peito de Marie e contemplaria o rosário por debaixo da carne putrefata, tal qual o carregado durante as alternantes seções de suas muito aplaudidas e reverenciadas apresentações.

Eu a observava dos bastidores e contemplava a graciosidade dos seus movimentos. Pela maneira como se movia, Marie não era apenas um corpo, mas uma alma em ebulição. Seus olhos deixavam de transparecer dor e passavam a evidenciar apenas a necessidade de estar ali. Por detrás das máscaras, Marceau era a sua própria válvula de escape.

~

Sob as decadentes sombras da noite, esgueirou-se o monstro, abriu-lhe o peito, devorou-lhe a alma.

 

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